para ouvir

o que surge agora

Agora, sim

Você não pode mudar este momento porque ele já aconteceu. É como o mar, entrar nele é aceitá-lo, ele é a lei, você se orienta se quer permanecer vivo. O destino não está programado e é por isso que você está livre agora. Quando existe uma crise você pode ver isso mais facilmente. Qualquer futuro ou confirmação do destino só pode ser feita a posteriori, por isso, não resiste ao momento presente e agora não existe. Mas como viver é estar em crise, porque crise é sinônimo de transformação, é a sua própria existência que está te mostrando isso a todo instante. O ego que busca certezas tem a função de dar segurança ao seu corpo, apenas isso. Se há crise então uma luz de emergência se acende, o mecanismo de autopreservação que há em você funciona. Alguma coisa precisa ser feita. Não se fixe às emoções negativas ou positivas que surgem. Fixar-se será frustrante porque as emoções positivas levam às negativas e vice-versa, são apenas estados temporários da sua mente.
 

Este momento sempre foi e sempre é livre do momento seguinte. Dentro de um estado de crise você pode perceber isso imediatamente. Quanto menos apego à ideia de estabilidade mais tranquilo você fica. Quanto mais tranquilo menos necessidade de se agarrar ao antigo e surrado desejo de estabilidade. É exatamente o entendimento profundo de não saber o que vai acontecer no próximo momento que desperta a felicidade mais genuína que há.
 

Um monge zen budista treina em si mesmo exatamente isso. Quando eu estava em Sojiji-soin, especialmente nos cem primeiros dias, eu e meus companheiros não tínhamos dinheiro nem emprego, não tínhamos casa ou a possibilidade de privacidade e nem propriedades. Não podíamos sair do mosteiro. Nunca, nunca sabíamos o que ia acontecer no dia seguinte, no momento seguinte, mas estávamos sempre disponíveis. Se você encara toda essa imprevisibilidade e desconforto a partir do ego então há muito incomodo e talvez nenhum aprendizado liberador. No entanto, se não há ego, mais uma vez você encontra felicidade e espaço livre. Não importa o que aconteça, que tipo de alarme soe, que profundidade de crise se instaure, onipresentemente a felicidade está aqui, porque aqui ela é sinônimo de sabedoria e tranquilidade. Nesse tipo de felicidade há um toque de eterno, ela não depende das circunstâncias temporais e nem do resultado das ações do passado.
 

Se há uma crise hoje, aproveite para se soltar dentro de um estado de não saber. Com todo o risco que pareça haver nessa atitude. Para o ego, para esse ser que parece controlar a sua vida, você mesmo(!), é uma atitude tresloucada. Mas não tem problema, a tranquilidade nesse ponto que estamos falando pode ter uma aparência absurda. Como não reagir com preocupação, temor, ansiedade, medo ou raiva? Como não demonstrar isso para os outros? Você não precisa, realmente não precisa. Se uma dessas emoções passa por você, você não precisa segui-la e  transformar-se nela. Mas por outro lado, se você está bem então não precisa “pegar uma carona” na emoção coletiva. Se não está totalmente bem, pode observar o que está acontecendo com o seu corpo naquele momento, e a melhor forma de fazer isso é se recolhendo, calmamente, dentro de si mesmo. Não em fuga ou alienação, mas em profundo estado de observação, um alerta tranquilo.
 

Lembro-me de acordar por dias com uma sensação muito tranquila, um estado de inocência parecido com o de uma criança, mas ao mesmo tempo com muita clareza e discernimento. Era a pura consciência da impermanência se manifestando, não exatamente isso ou aquilo se transformando, mas apenas, digamos assim, o ato, o instante da transformação em si, somente a calma percepção da energia movimento, não este ou aquele movimento ou mudança em particular. Era possível perceber a impermanência de forma quase tátil e essa consciência era de uma felicidade tranquila, sem pressa, duradoura.
 

Se o desejo de previsibilidade não satisfeito te faz sofrer você deve se perguntar “quem não está satisfeito?” Se a resposta for “eu” você precisa saber o que é esse eu, senão, não foi uma resposta, mas apenas uma informação inócua, uma palavra vazia de significado (e-u). No entanto você pode usar o desprendimento como uma ferramenta, como um abridor, para abrir a si mesmo. Em um estado de liberação não faz sentido se ater demais às previsões para o futuro, mesmo o mais próximo. Porém, se a resposta não for “eu” então você está encarando sem medo este instante. O medo transforma-se em sabedoria, não o contrário. Quando não há “eu” não há medo que perdure. O que é conhecido como medo é uma característica da funcionalidade do nosso corpo. Porque o perigo de viver é concreto temos o medo para nos tirar desse tipo de situação, esta é a sabedoria. O medo nos ajuda a cuidar da nossa existência. Mas, se você se fixa ao medo e o transforma em uma parte da sua identidade (apego), então a sua consciência não se abre.
 

O medo é sem razão, por isso ele é íntegro, total. O medo é um impulso muito forte, não há tempo para abstrações, ele te mostra isso. Mas, quanto menos medo melhor, acho que todos podemos concordar com isso. O medo é apenas esse impulso se liberando de você para que a sabedoria flua. Assim, livremente, você verifica por si mesmo o que fazer no momento. Não sentir medo não é humano, cultivar o medo é desumano. Deixar que de forma natural e imediata o medo se transforme em sabedoria, isso sim, é humano.

Existe um treinamento para os monges em mosteiros, entretanto, o seu treinamento está no próprio desenrolar da sua existência. E você sempre tem, e só tem, acesso à sua existência agora. Arrisque-se permanecer com os pés no ar (essa é a metáfora do poder da levitação).
 

*
 

Você diz sim ao momento, sem pestanejar;
o momento só sabe dizer sim para você, desde sempre.
O mar não é um deus, mas remando em suas ondas você desaparece.
Depois do teatro de fantoches, os titereiros se retiram com as mãos vazias,
Mantendo-se com as mãos vazias e os pés suspensos
a terra vem ao seu encontro – um salto.
Apenas uma porção mínima são as suas decisões – lembra-se do mar?