bio

seigen viana

Seigen Viana é monge zen budista com prática diária de meditação vazia há 15 anos e dezenas de participações em retiros. Durante 10 anos estudou com o Mestre Dosho Saikawa, Abade do Templo Busshinji, em São Paulo, ao qual é filiado. Tomou os votos de Bodhisattva em 2005 e em 2009 tornou-se monge regular da Escola Soto Zen. Foi professor de Meditação Vazia durante dois anos no Templo Busshinji. Esteve internado durante um ano no Japão nos mosteiros Sojiji-soin e Gotanjoji, onde teve a oportunidade de se aprofundar nos estudos e práticas budistas. Atualmente vive com sua esposa em Armação dos Búzios, no estado do Rio de Janeiro, onde mantém um local de prática zen aberto à comunidade. Orienta a Sangha Flor de Lótus na cidade do Rio de Janeiro e na Região dos Lagos.

Como cheguei aqui

Na adolescência tive contato com o Zen através de uma amiga que participava de retiros. Ela me falava de disciplina e desprendimento. Falava em não mais sofrer pela falta do conforto, material e psicológico, que vínhamos sendo acostumados desde criança.

 

Muitos anos se passaram e leituras me levaram ao Zen novamente. Como se uma vida, quase, não fosse o bastante para encontrar uma prática espiritual verdadeira e profunda, eu ainda levaria vários longos anos para experimentar a meditação vazia. Mas, ao experimentar, alguma coisa acordou dentro de mim. Uma fagulha minúscula se acendeu, mas foi o suficiente. Alguns anos mais se passaram até encontrar um mestre e uma sangha. 

​No budismo, toma-se refúgio no despertar do corpo e da mente, na verdade e na companhia de quem segue com sinceridade o caminho do despertar (da verdade dentro de si). Tomei refúgio, os votos de Bodhisattva, e algum tempo depois fui ordenado monge. Naquele momento já dedicava a minha vida à prática zen budista com bastante intensidade. Participando de retiros e convivendo com outros praticantes, professores e com o mestre.

 

Mas foi no primeiro retiro vestindo o kesa (quessá), o manto de Buda, que as coisas, loucamente, mudaram de rumo. Eu era o responsável pela marcação do tempo na sala de meditação. Essa função me mantinha distante de Saikawa Roshi, meu mestre. Então, quando ele falava, eu me aproximava silenciosamente, sem que ele percebesse, para ouvi-lo melhor. Quando meu mestre apareceu, disse para mim mesmo, este é o Mestre, este é o momento certo. Então, entre nós aconteceu um verdadeiro encontro. Eu agora tinha um mestre e tinha a meditação vazia, não precisava de mais nada. Fiquei um longo período sem ler livros. 

Dosho Saikawa Roshi

Já havia se passado alguns dias do retiro. Como sempre procurava fazer, buscava me dedicar e me concentrar completamente. Sentia minha mente se acalmando e encontrando um outro estado. Nesse dia, em uma das vezes que olhei para o lugar onde as outras pessoas meditavam, percebi que não havia ninguém lá. Não havia mais pessoas, mas estava completo. Nesse momento surgiu uma imagem, a de que as pessoas eram fios bastante tênues de luz, mas esta era uma representação mental da sutileza da existência humana, apenas isso, não era a verdade final. Nada mais precisava se fechar em definições. Logo depois, ao tocar o sino, o martelo de madeira que segurava nas mãos, o meu corpo, o metal do sino e o som, eram uma coisa só, vibrando. Não havia separação, mais uma vez, nada estava definido. Não havia mais fronteiras. Uma felicidade estranhamente maravilhosa tomou conta dos meus olhos, das raízes dos cabelos e de todo o corpo. Eu havia desaparecido e despertado ao mesmo tempo para uma correnteza de tranquilidade e felicidade sem princípio nem fim. Naquele momento senti que nunca mais seria o que havia sido antes, ou o que havia sido antes, estava longe de ser aquilo que realmente era. A ideia de um eu era apenas um detalhe. Tudo era uma coisa só, desde as profundezas do planeta, até a estrela mais distante.

 

Continuei fazendo as atividades do retiro, a qualquer momento se acendia aquela felicidade sem causa, total e radiante. Alguma coisa havia se destampado, mostrando o que é o dharma sem sofrimento. Noutro momento, um monge professor, após uma refeição, me ofereceu um pequeno cacho de uva, recebi a fruta e a ofereci de volta para ele, naquele momento meus olhos se acenderam. A partir daí, todas as coisas se tornaram mais nítidas, coloridas e brilhantes. Os olhos haviam caído, podiam cair a qualquer momento. Meu coração reencontrou a ternura e a compaixão por todos os seres e por todas as coisas. Nunca mais eu seria o que havia sido antes, em qualquer época, em qualquer momento, para sempre.

Seigen Viana

A verdade dispensa a sua crença. Desfaça-se da segunda.